É bem comum ficarmos em dúvida com relação à abordagem terapêutica do psicólogo. Quem nunca fez terapia, desconhece os conceitos e técnicas de manejo psicoterapêutico relacionadas a cada uma das abordagens. 

De acordo com o Psicólogo Lucas Baviera, uma pesquisa apresentou que a eficiência da abordagem depende principalmente do psicólogo. Ou seja, depende mais de como o psicólogo maneja com familiaridade a sua abordagem do que o tipo de problema ou a personalidade do paciente para a sua eficiência.

Para minimizar as dúvidas, convidamos alguns de nossos psicólogos para explicarem suas abordagens.

Psicologia Analítica de Jung (Junguiana)

De acordo com a Psicóloga Rosaneli Fernandez, nesta abordagem parte-se do pressuposto que o ser humano é uma totalidade. Diferente da Psicanálise de Freud, temos como pressuposto que o inconsciente é composto por aspectos pessoais e coletivos e por meio do confronto entre consciente e inconsciente se dá o amadurecimento. Para que isso aconteça, é preciso um ego (cliente) disposto a aprofundar e se entregar ao processo.

São utilizadas técnicas como interpretação dos sonhos, pintura e imaginação ativa. Basicamente o cliente deve estar disposto a utilizar estas técnicas e ter capacidade de simbolização. A participação do cliente é ativa e portanto não deve esperar "conselhos" do psicólogo. 

É uma abordagem profunda, portanto não imediata, embora resultados rápidos possam acontecer. De forma geral, o que o cliente precisa é estar disposto a se conhecer em um nível além das aparências.

A Psicóloga Márcia Lorio, também utiliza essa linha. "Eu utilizo na minha prática análise de sonhos, uso desenho, dramatização e outros recursos expressivos, além do discurso verbal. Nunca ninguém se opôs a essa metodologia embora alguns se sintam mais à vontade com um ou com outro."

A Psicologia Junguiana também não foca na patologia do cliente. Trazendo rótulos para sua condição. Procura entender o sentido da queixa como um pedido de ajuda, algo que quer se transformar.

Por isso minha postura é de aceitação completa de tudo que o paciente traz, por mais estranho que pareça. Essa aceitação do outro faz com que ele tenha vontade de voltar e encarar um trabalho. 

A linha Analítica surgiu com a Psicanálise Freudiana, o principal autor desta linha é Jung. Tem alguma semelhança com a psicanálise, pelo fato de Jung ter sido discípulo de Freud, porém a linha analítica surgiu quando Jung passou a trazer para a psicanálise algumas questões ligadas ao seu conhecimento de alquimia e religião, que mudava um pouco a visão de inconsciente trazida por Freud. Portanto, na teoria analítica, fala-se muito em inconsciente coletivo, sombra e sincronicidade. Pode ser confundida com algo mais místico, embora não seja.

Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC)

A Terapia Cognitivo-Comportamental se baseia na formulação de um contínuo desenvolvimento do paciente e de seus problemas em termos cognitivos. Desde o início identifica-se o pensamento atual do paciente e seus comportamentos disfuncionais. 

Requer uma aliança terapêutica segura: cordialidade, empatia, atenção, respeito genuíno e competência. A aliança entre o paciente/cliente e o psicólogo (terapeuta) se dá de forma colaborativa. A abordagem enfatiza a colaboração e participação ativa, ou seja, há um trabalho em equipe: Terapeuta + Paciente.

Orientada em meta e focalizada em problemas = enumerar problemas e estabelecer metas específicas. Enfatiza o presente, ou seja, inicialmente enfatiza o presente (os problemas do aqui e agora). O tratamento da maioria dos pacientes envolve um forte foco sobre problemas atuais e sobre situações específicas que são aflitivas para o paciente. Vale ressaltar, que o passado tem a função de entender as origens das ideias disfuncionais e como afetam o paciente HOJE.

De acordo com a Psicóloga Wiwi Parra, a TCC  é educativa, visa ensinar o paciente a ser seu próprio terapeuta e enfatiza a prevenção de recaída. Esta abordagem ensina a estabelecer metas, identificar e avaliar pensamentos/crenças e assim, mudar comportamentos. Por fim utiliza-se de várias técnicas para mudar pensamento, humor e comportamento. 

Em resumo, o objetivo da Terapia Cognitiva-Comportamental é nos mostrar que o que tem influência sobre nós não está diretamente relacionado aos acontecimentos e situações diárias, mas sim a forma que interpretamos cada uma dessas situações.

A Psicóloga Angela Fabbri afirma que ao iniciar o trabalho - logo depois do paciente contar o que o traz ao consultório - já apresenta o tipo de referencial técnico que vai utilizar. "Explico que vamos analisar suas queixas de forma a:

  • Observar a situação em que elas ocorrem ou que as ocasionam; 
  • Perceber os sentimentos e emoções que estão associadas à essa situação; 
  • Identificar os pensamentos automáticos e disfuncionais que surgem durante a situação.

O objetivo dessa análise é o entendimento desses pensamentos e do tipo de crenças pessoais estão ativadas gerando sofrimento. O caminho para o tratamento será o paciente se apropriar desse processo e mais tarde, através do aprendizado na terapia, por si só conseguir modificar seus padrões de pensamentos para que se mantenha bem.

O paciente percebe que após explicitar suas queixas, vamos construir um plano de ação, com metas a alcançar (ex: fobia de metrô - a meta é conseguir andar de metrô sem sentir muita ansiedade). Ou seja, o paciente participa pontuando aonde quer chegar, qual o seu estado desejado. A partir daí, a construção da intervenção será "desenhada".

O vínculo entre paciente e terapeuta tem que ser seguro e colaborativo, para que o trabalho transcorra de forma positiva e eficaz. Na TCC é comum que o terapeuta oriente "lições de casa", que são atividades direcionadas a se observar determinados pontos em que o paciente precisa trabalhar e que serão discutidos na próxima sessão. Sem a colaboração do paciente, essas atividades não acontecem, e o andamento da terapia fica mais lento. 

O foco maior da terapia é o sofrimento presente, os problemas atuais, mas sempre conhecendo a história do paciente em vários aspectos, identificando e entendendo as origens de seus pensamentos disfuncionais, de suas crenças, suas relações, sua saúde e constituição biológica, sua personalidade e seus interesses, e como todo esse conjunto afeta o paciente hoje. 

A TCC possui um forte elemento educativo, onde se propõe que o paciente vá conhecendo suas dificuldades, seus transtornos, de forma a identificar posteriormente padrões semelhantes e ser capaz de evitar recaídas."

Behaviorismo

O termo foi utilizado inicialmente em 1913 por John B. Watson em um artigo intitulado "A Psicologia como um comportamentista a vê". Behavior significa "comportamento" e foi definido por Watson como um ramo experimental e puramente objetivo da ciência natural. O objetivo desta linha de pensamento é o de prever e controlar o comportamento. 

Esta abordagem, também conhecida como Comportamental, contribuiu substancialmente com o desenvolvimento da Psicologia enquanto ciência, ao passo que trouxe aspectos mensuráveis e observáveis do comportamento humano.

Humanista

Esta é uma linha mais filosófica, um dos principais autores da linha humanista é o Carl Rogers, que denomina seu trabalho de teoria centrada na pessoa. Nesta teoria, não há um técnica específica, há apenas alguns fatores que precisam ser respeitados. Aqui, o importante é proporcionar um terreno fértil, para que o paciente possa desenvolver o seu melhor. Cabe ao profissional, escutar com empatia, ser congruente, ou seja, ter condições de devolver ao paciente aquilo que é percebido durante as sessões, e proporcionar um ambiente seguro para que este possa desenvolver-se. Ainda dentro da linha Humanista, há uma outra abordagem, denominada fenomenológica, também de cunho mais filosófico.

Psicanálise

A principal descoberta da Psicanalise é o inconsciente. Seu principal ícone é Freud, conhecido como o pai da Psicanálise. Existem outras escolas como Winnicott, Lacan, Melanie Klein.

Na psicanálise descobrimos que há algo em nosso aparelho psíquico que não dominamos, que desconhecemos, mas que de alguma forma "controla" nossas ações. Quando a pessoa chega para análise, geralmente ela vem trazida por um desconforto, um sintoma, porém, o papel do analista é ouvir nas entrelinhas, ou seja, ouvir o que não está sendo dito, o que está por trás de determinado sintoma. 

Segundo a Psicóloga Ana Paula Dias da Silva, entende-se que o aparelho psíquico, quando "saudável", utiliza de um mecanismo de defesa chamado "recalque", que envia para nosso inconsciente, tudo aquilo que não temos condições de lidar conscientemente, porém, todo material recalcado esconde um desejo, desejo este, insuportável para o individuo. Desta forma, este material "desejo" é recalcado e substituído por um sintoma, que  se incumbe de realizar aquele desejo, porém de forma suportável para o individuo. Entendemos que tornar o inconsciente, consciente, é o primeiro passo para tratar o sintoma. Desta forma, Psicanálise e Behaviorismo são duas teorias que não se conversam, pois uma nega a outra, para a psicanálise, tratar comportamento é paliativo, não resolve o problema, apenas muda ele de lugar. Você trata o sintoma, e ele vai aparecer em outro formato, na formação de um novo sintoma.

Outro fator importante é o desejo de ter algo melhorado. Segundo a Psicóloga Bárbara Adele, o paciente que vem porque a mãe, a tia, o padre, o médico ou qualquer outra pessoa mandou, dificilmente fica em análise. "Se o sofrimento, a dúvida, a angústia não for um incômodo para a própria pessoa, ela não vai querer entrar num processo terapêutico em que ela vai ter que repensar e desconstruir muitas "certezas" da vida dele. Esse é o primeiro ponto e o mais importante", afirma a psicóloga. 

A construção do vínculo terapêutico

Segundo o Psicólogo Fábio Carvalho, a relação autêntica e sem máscaras do terapeuta em relação ao cliente/paciente nem sempre é construída nas primeira sessões. Depende do nível de maturidade e sofrimento que  levou o cliente/paciente a procurar ajuda. Um paciente mais maduro, que tenha passado por terapia antes e que esteja disposto a aceitar essa relação de forma autêntica tem mais chances de criar o vínculo necessário para continuidade à terapia. Pacientes mais jovens, com mudanças em suas rotinas, muitas vezes estudam e trabalham, acabam por desistir se o vínculo construído e não for forte o suficiente. "Tem pacientes que passo semanas, até meses, para criar um vínculo que resultará em um ou mais de terapia."

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